A Beleza do Suburbio

Constructing a Photo: The Stories Behind 3 Images (A text by Dinho)

After the last post, I was lucky to have received yet another text from Dinho for the blog. We had been discussing the importance of the story of a photo: how did this photo come to be? How is it perceived by different people? How is it beautiful? One photo that touched us both was the photo of the umbrellas, as it had a powerful story behind it for anyone who was a part of it. So Dinho chose three different photos to talk about, to share stories, to expound on the meaning behind the image. Here is the text… e mais uma vez, obrigada Dinho!

As fotos em construção: histórias iniciais de três fotografias de Marcella Hausen

José Eduardo Ferreira Santos

Uma foto tem história.

Algumas fotos se tornam eternas e seu valor diz muito de sua construção…

Marcella Hausen realizou três fotos que considero eternas neste nosso primeiro e significativo trabalho sobre a beleza do Subúrbio Ferroviário de Salvador.

Nestas semanas de trabalho em conjunto ainda não é possível ter a dimensão do trabalho realizado, mas o que nos moveu foi registrar a beleza que está aqui e que não consegue ser vislumbrada.

Marcella Hausen topou, comprou as passagens e veio trabalhar nesta aventura.

Como resultado gostaria de falar um pouco do valor e da dimensão histórica de três fotos, por ordem de acontecimentos.

I

A primeira foto trata-se da instalação das sombrinhas coloridas.

Essa foto histórica, aliás, toda a série nasceu da sensibilidade de um jovem no encontro conosco.

Era uma manhã de chuva do dia 31 de junho e fomos ao Cluberê de Novos Alagados apresentar o projeto de fotografia e estética.

Antes disso, uma chuva torrencial nos fez ficar parados em um ponto de ônibus na Avenida Suburbana por mais de meia hora.

Durante esse tempo conversamos muito sobre a questão da educação e da não profissionalização dos pedagogos na Bahia e no Brasil. A conversa foi muito extensa e profunda, aliás, inesquecível por conta dos tantos detalhes e aprofundamentos que fizemos. Conversa tão densa quanto à do Brasil profundo, um tema que nos fascina de forma tão existencial por sermos brasileiros com raízes amplas e profundas no Brasil, mas com a dimensão da pertença universal.

Chegando ao Cluberê, depois de apresentar a proposta, ficamos esperando a chuva passar.

Enquanto isso não acontecia Marcella começou a fotografar a chuva e o espaço, em um determinado momento vimos que havia algumas sombrinhas dependuradas em um portão de ferro e sobrinhas dispostas no espaço.

Quando ela se pôs a fotografar a escada molhada um jovem teve a ideia de colocar as sombrinhas sobre os degraus.

Pronto: aqui começou a criatividade de nós três a trabalhar. Começamos a dispor as sombrinhas em círculos, em fileiras e dependuradas sobre a grade.

Neste momento houve a percepção em todos nós de que a beleza está sempre à espreita e que para que ela se revele é necessária uma sensibilidade que seja educada para ver o que os olhos gastos daqueles que estão no lugar não sabem mais ver.

Ao sair de lá nos perguntávamos espantados sobre a sensibilidade estética presente naquele jovem, para que ele se antecipasse na disposição do tempo e do espaço e das sombrinhas para que elas poeticamente fossem dispostas daquele modo? Como pode um jovem deixar aflorar em tão pouco tempo o sentido do que estávamos propondo em um olhar para a beleza que se escondia naquelas cores das sombrinhas dispostas no espaço azulejado de um vazio dado pela chuva? Que olhar é este que cria, imagina e realiza em tão pouco tempo?

Ou seja, o que queremos e estamos propondo é isso: fazer emergir essa sensibilidade estética de jovens em situação de vulnerabilidade e risco social, para que eles sejam reconhecidos por esse dom latente, mas que precisa ser ordenado, trabalhado e elaborado para que ele possa expressar sempre mais a sua sensibilidade estética e possa ser reconhecido por ela.

Outro aspecto importante para quem propõem uma atividade dessa natureza é a atenção às sugestões da realidade. Precisamos aprender a valorizar as pequenas iniciativas dos jovens e os reconhecer por elas, e, ainda mais, trabalhar com eles a partir dessa iniciativa.

II

A segunda foto, e uma das mais expressivas deste dias, foi um verdadeiro achado poético do olhar da Marcella.

Depois de andar muito pelos locais de Novos Alagados e São João do Cabrito, decidimos ir até a praia do Alvejado.

Lá, na estação ferroviária Almeida Brandão, em Plataforma, levei-a para ver a bela vista que se descortina da Enseada dos Tainheiros  e a Penha.

Ocorre que a maré estava repleta de algas marinhas verdes.

Neste momento Marcella se pôs a fotografar algo que para mim é e sempre foi comum, ou como é comum para quem mora perto do mar: as algas fazem parte do nosso dia a dia.

Até aí tudo bem…

Depois, vi que no seu perfil no facebook ela colocou essa foto no seu mural e neste momento eu tive um espanto: a foto é uma das elaborações fotográficas mais belas que já vi por toda a sua composição.

Cor, luz, textura, movimento, enquadramento, tudo registrado de maneira excepcional.

Essa foto é de uma delicadeza e dimensão única para a história da fotografia.

Considero-a paradigmática por essa beleza que surge em qualquer lugar, bastando apenas alguém que com os meios, a profissionalização, a capacidade, sensibilidade e a percepção conseguem captar.

Essa foto revela que quando estudamos territórios marcados pela pobreza não devemos focar somente nos aspectos já demarcados pela pobreza e que muitas vezes satisfazem os pesquisadores. A pobreza, como qualquer fenômeno humano, precisa ser enquadrada de um modo mais amplo e global como propõem, por exemplo, as professoras Ana Cecília de Sousa Bastos e Elaine Pedreira Rabinovich, que conseguem capturar essas nuanças em suas pesquisas e publicações.

Esse exercício de antes de propor para os outros propormos para nós a questão da beleza do Subúrbio faz com que tenhamos a responsabilidade de primeiros nós educarmos o nosso olhar para que depois essa proposição seja dirigida aos outros com um processo de elaboração já refinado, refletido, discutido, analisado, e, mais que isso, experienciado.

III

A terceira foto diz respeito à máscara de madeira do Orixá Oxalá, esculpida pelo artista Otávio Bahia, de Fazenda Coutos e que faz parte do Acervo da Laje.

Nesta foto mostra-se plenamente o gênio criativo e sua  capacidade de fotográfica.

Conforme a sua proposição de fotografar as obras do Acervo nas ruas de Novos Alagados ela quis realizar – e conseguiu – o impensável: levar as  máscaras para o mar, para perto do ecossistema que faz parte da realidade de Novos Alagados, assim como da mitologia dos Orixás, que está muito ligada à natureza: águas do rio e do mar, plantas, manguezais, encontro de águas de rios e mares, pois para quem não sabe a Enseada do Cabrito é banhada pelas águas vindas do rio do cobre e se encontra com o mar. O que atualmente é um pequeno afluente, nos idos de 1500 era assombroso este encontro de águas.

Como costumo ser obediente aos fotógrafos e a quem me orienta ou dirige, fui com ela, pus os pés na lama e com um pouco de preocupação, mas sempre obediente, levei as máscaras para a lama, apoiadas em velhos pneus carregados de pequenas ostras.

Pouco depois ela me explicou que queria ter o resultado do encontro das máscaras com o mar, e depois com o bairro e por fim as nuvens, o infinito.

Ela ficou durante um bom tempo, cerca de quase uma hora fotografando as máscaras ali naquele local e depois dentro do manguezal.

Para minha surpresa, a foto da máscara de Oxalá ficou impressionantemente bela: ele, ali, sozinho, com os olhos arregalados, parecendo ter seu corpo enterrado na lama e a cabeça à mostra, como quem olha para nós.

É uma foto poética e reflexiva.

Misteriosa por seu contexto e me fez entender que o olhar do fotógrafo é um olhar que vê antes, que se antecipa à beleza.

Por tudo isso valeu muito esse nosso primeiro momento de projeto, de elaboração e reflexão iniciais.

Esse texto é o início de uma colaboração agora mediado pela internet, mas que se propõe a não esgotar o que estamos vivendo, pois quando as fotos começaram a aparecer, vamos ter muito o que trabalhar.

É isso,

15 de agosto de 2012

Advertisements
This entry was published on August 22, 2012 at 3:22 pm and is filed under Uncategorized. Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

3 thoughts on “Constructing a Photo: The Stories Behind 3 Images (A text by Dinho)

  1. Tiani hausen on said:

    Sensacional! Tanto as fotos quanto o texto! Quedupla! Parabens filha

  2. José Eduardo Ferreira Santos on said:

    Querido Tiani, boa noite! Parabéns pela brilhante filha e pessoa querida e profissional inestimável! Uma alegria para o Brasil e o mundo!! Grande abtraço!

    • tiani hausen on said:

      Grande Dinho! Sao pessoas como você que a movem e a incentivam. Parabens por tudo que tem feito por ela e por esse lindo povo baiano, por suas iniciativas e talento. Espero lhe conhecer em pessoa num futuro proximo. Forte abraço. Tiani

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: