A Beleza do Suburbio

Brasil Profundo: A Perspectiva do Dinho

Considering the pattern of the last posts, we decided to keep this back and forth thing going! This way we get in both languages, both points of view, and a more holistic feel of the experience. Dinho sent me his perspective on “Brasil Profundo” (profound Brazil), to follow up on my last post. Here is yet another wonderful contribution…

Obrigada Dinho!

Brasil  Profundo

José Eduardo Ferreira Santos

Estar com Marcella Hausen na Bahia, em Novos Alagados, durante três semanas foi uma experiência única.

Conversamos muito. Discutimos muito. Foram conversas eternas, dessas que nenhuma aula haverá de fazer.

Ela, brasileira e cidadã do mundo, estudante em Nova York; eu, brasileiro, cidadão do mundo, morador de Novos Alagados: dois universos em um encontro de culturas e de saberes diversos, mas carregados de uma pertença ao Brasil.

Em nossas conversas surgiu este tema em relação ao Brasil Profundo, ao que nos identifica enquanto pertencentes a este povo, a este modo de viver e ser enquanto existência neste mundo…

O Brasil Profundo existe.  Está nas periferias, nos contextos rurais, nos quilombos e em uma cidade muito especial em minha vida: Bom Jesus da Lapa!

Contei para Marcella que quando fui a Bom Jesus da Lapa, na Bahia, chorei três dias e três noites porque havia descoberto o “útero” do Brasil, ou seja, o lugar que segura, ampara e protege a loucura que é o Brasil com suas cidades grandes, pois para lá aflui um povo que pertence ao Brasil de um modo visceral, único e ancestral.

Essa experiência do Brasil Profundo em Bom Jesus da Lapa me fez ver os rostos dos brasileiros e nos seus rostos a minha pertença a eles, tanto nos usos como nos costumes dos brasileiros, que mesmo que vivam em qualquer parte do mundo eles carregam como marca indelével desta pertença.

Marcella reconheceu essa pertença nos chás e no modo de ser cuidada quando está doente.

Aquilo que sua mãe ou sua avó aprendeu tem a universalidade do Brasil. Esse modo de lidar com a natureza para tratar das doenças; essa força de se conceber no mundo levando em conta a realidade mais ampla, menos biomédica.

O Brasil Profundo é assim.

Ele escancara a nossa identidade e os modos ancestrais de lidar com a realidade.

Por este motivo ir a Cachoeira, na Bahia, ou pesquisar em Novos Alagados nos oferece a oportunidade de pertencer a esta gente, ao seu modo de existir que foi sendo plasmado nestes poucos séculos e que ainda tem muito para trilhar enquanto constituição de uma civilização brasileira…

Ainda é possível encontrar pessoas que ultrapassaram a nona década de vida e que podem nos explicar o Brasil em que viveram.

O Brasil Profundo é um mistério, pois está presente na tradição oral, embora não tão documentado em livros; está nas manifestações religiosas, que estão se transformando de forma célere; está na eterna luta entre a memória e o esquecimento.

O Brasil Profundo para mim se revela na face das pessoas que habitam este País e para situar essa percepção lembro-me muito bem do meu espanto e choque em Bom Jesus da Lapa, onde fui ministrar algumas aulas e era impressionante poder ver as tantas famílias vindas dos locais mais diferentes do Brasil se encontrar naquele grupo com o Bom Jesus da Lapa.

Neste momento entendi que para o Brasil urbano acontecer é necessária a existência de um Brasil que ficou guardado dentro de nós e que se revela, por exemplo, quando viajamos para territórios rurais que guardam as nossas práticas e modos de viver o real de uma forma mais originária.

Aqui me refiro às comunidades rurais, indígenas e quilombolas, aonde o efeito do “progresso” ainda não chegou com seus efeitos devastadores, reelaborando práticas e fazendo com que saberes ancestrais sejam abandonados, e muitas vezes retirando dessas populações o senso de pertença que lhes era originário e permitia a vivência de práticas que vão se perdendo atualmente.

Mistério porque lidamos com o incomensurável e uma constatação porque pertencemos de um modo que nem muitas vezes sabemos definir, pois a pertença está em nós, no nosso modo mais cotidiano de lidar com as coisas, de pensar, sentir e interferir no mundo.

Quando afirmamos que existe um Brasil Profundo é porque ele mesmo insiste em se apresentar a nós quando nos debruçamos sobre a pesquisa.

Por exemplo, pesquisando durante esses anos a realidade de Novos Alagados, geralmente sou tomado pela percepção da ancestralidade das práticas cotidianas.

O uso de chás, orações, tabus alimentares, crenças, lendas, cosmologias, formas de entrar no mar, orações antes de sir de casa, a sacralidade de determinadas horas do dia, o poder da palavra, o medo do desconhecido, a busca religiosa, enfim, tantos fatores que nem as mudanças ocorridas nos últimos tempos conseguem sepultar, pois a alma brasileira vibra neste Brasil profundo que é feito de pessoas únicas, mas portadoras de um modo brasileiro de viver, isso em qualquer parte do mundo.

O Brasil Profundo carrega uma alegria e uma esperança mesmo diante de qualquer drama humano.

Essa característica é recorrente e acredito ser uma das contribuições do Brasil para o mundo.

“Alegria de viver”, este é o termo que define o Brasil Profundo, pois mesmo dentro da precariedade das nossas condições de vida, estamos acordando todos os dias querendo modificar a realidade e aprender com ela; queremos reinventar as coisas; queremos permear de afeto as coisas, mesmo aquelas nas quais o afeto não é bem vindo.

Mas no Brasil Profundo vemos também quão nefastas são conseqüências da desigualdade social e da corrupção: enquanto os políticos brasileiros roubam, superfaturam obras etc., existe uma camada da população que sofre com estes desmandos e não tem acesso a serviços básicos como rede de esgotos, saneamento básico, moradia, saúde e educação de qualidade, isso sem falar na transferência de renda ou mesmo salários dignos.

Existem rincões no País que ainda vivem como há maio século atrás, pois a desigualdade social é tamanha que os benefícios do “progresso” ainda  não chegou por estas bandas do Brasil.

Viajando como professor pelo interior da Bahia pude constatar in loco essa realidade cada vez mais assombrosa, porque embora o Brasil esteja se firmando como uma das maiores economias do mundo, o País ainda sequer conseguiu alcançar, território adentro, mudanças para parte desta população.

O Brasil Profundo precisa ser conhecido por nós, pois ele é o útero das que gera as nossas grandes cidades.

Nele, a vida pulsa intensamente guardando a nossa memória e ancestralidade.


23 de agosto de 2012

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This entry was published on October 8, 2012 at 1:21 am and is filed under Uncategorized. Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

One thought on “Brasil Profundo: A Perspectiva do Dinho

  1. lucybrazil@yahoo.com on said:

    Espetacular … Obrigada!!!!

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