A Beleza do Suburbio

Continuação do “Brasil Profundo”: A Historia do Subúrbio Ferroviário

After the last post that was sent to me by Dinho was posted, I received another contribution expanding on the concept of Brasil Profundo, more specifically in Subúrbio. I haven’t gotten a chance to write a post myself in the last few weeks, but that will be coming soon. For now, I feel Dinho’s words should be posted and recognized as they go into the neighborhood’s history and genealogy.  The intention of Acervo da Laje is to create a space in which the “invisibility” that has taken precedence in the neighborhood can be combatted. The gallery is a space that allows for history to be registered and documented through paintings, sculptures, masks, shell and coin collections and much more. All of these relics are physical manifestations of stories and histories that have been forgotten– that have been dubbed invisible.

This post goes through a brief history of Subúrbio and highlights the changes in both the ecology and the culture of the area. It recognizes that it is a disconnect from the past, rather than poverty itself, that is responsible for the current state of Subúrbio. There is a divide between what is taking place, and what has led us to this point. Dinho argues that if we were to go back and understand our past with more candor and clarity, we could better represent and supplement the present.

Obrigada e aproveitem!

***

Subúrbio Ferroviário de Salvador: extrato do Brasil Profundo

José Eduardo Ferreira Santos

O Subúrbio não é o lugar da pobreza e da violência no qual ser tornou nas últimas décadas no Brasil.

Sua origem remonta a antes da colonização portuguesa em terras da Bahia, com a existência de grande população indígena e antes disso pela presença de povos nômades que para essa área da cidade de Salvador eles vinham habitar por conta do grande potencial de riquezas naturais existentes, pois em um território imenso havia as condições necessárias para a vida: águas de rios e mares, manguezais, florestas, e toda uma geografia aberta para o infinito campo de possibilidades da existência. Ainda sobre essa ancestralidade pré-colonização vale atentar para o fato da existência do Sambaqui da Pedra Oca, em Periperi, estudado na década de 1960 pelo professor Valentin Calderón, onde o mesmo encontrou artefatos pré-históricos no local.

Neste sentido a percepção do Subúrbio como um lugar aprazível e de riquezas naturais é a primeira referência que tenho em relação ao Subúrbio Ferroviário de Salvador.

Com a colonização, a partir do século XVI, os indígenas foram sendo dizimados e expulsos da região e as áreas, que antes lhes pertenciam, começaram a ser ocupadas pelos portugueses, que ali foram construindo seus engenhos, casas de veraneio e igrejas, formando até uma pequena cidade, um julgado, em Paripe.    Ainda neste período os jesuítas tinham um engenho na região do São João do Cabrito, cujo nome do orago estendeu-se para toda a região, mesmo que as pessoas não saibam disso, pois a região que atualmente se chama Cabrito ou São João deriva do nome do patrono do engenho dos jesuítas.

O Subúrbio Ferroviário de Salvador sempre se destacou pela suas belezas naturais e históricas, mas pouco resta da história nos dias de hoje.

As igrejas continuam imponentes como a de São BartolomeuNossa Senhora da Escada e São Thomé de Paripe. Outras, como a de Nossa Senhora do Ó, em Paripe, está em ruínas.

Sobre as belezas naturais não há como não se dar conta delas ao contemplar a beleza das praias que ainda resistem à ação destruidora do homem: Enseada do Cabrito, Alvejado, Itacaranha, Escada, Praia Grande, Periperi, Tubarão e São Thomé e Base Naval ainda mostram sua beleza.

Quanto às fontes e cachoeiras pouco resta, mas dá para se encantar ainda com as cachoeiras de Oxum, Nanã e Oxumaré, no Parque São Bartolomeu, local rico de florestas e águas.

Este Parque guarda a memória da população africana que foi trazida escravizada para a Bahia.

Local de resistência, as matas do Parque serviram para a constituição de quilombos, além de o espaço ter sido palco para a guerra da Independência da Bahia.

Como se pode perceber a importância do Subúrbio Ferroviário de Salvador ainda não foi devidamente analisada no Brasil, simplesmente pelo fato de que a região, quando começou a ser relacionada com a pobreza e a marginalidade passou a se tornar invisível.

Tão invisível que os estudos não dão conta da grandeza e da perspectiva histórica do lugar.

Falando para alguns alunos de um projeto social em Novos Alagados me surpreendi contando a eles como a toponímia dos lugares e seus nomes remetem às ancestralidades indígenas, portuguesas e africanas ainda presentes na região.

Os nomes das localidades do Subúrbio Ferroviário de Salvador guardam essa memora ancestral: Boa Vista do Lobato, Mirantes de Periperi, Rio Sena, Planalto Real, Bela Vista do Lobato, Alto do Cabrito, São João do Cabrito, Escada, São Thomé, Paripe, Periperi, Itacaranha, Praia Grande, Tubarão, São Bartolomeu, Cachoeiras de Oxum, Nanã, Oxumaré, Outeiro, Bacia de Oxum,  dentre outros, marcam até os dias atuais a história local.

Descrito desde o século XVI por Gabriel Soares de Sousa, Frei Vicente do Salvador; séculos depois por Wanderley Pinho, Teodoro Sampaio e mais recentemente por Jorge Amado, o Subúrbio Ferroviário de Salvador tem uma história que apesar de invisível está bem documentada, mas distante do olhar de sua população.

Outros aspectos importantes, mas desconhecidos mostram que o território suburbano recebeu visitas ilustres como padre José de Anchieta ou mesmo o padre Antonio Vieira, isso sem falar no desembarque das tropas holandesas em 1624, que se deu por terras suburbanas, quando da invasão à cidade da Bahia, conforme podemos encontrar nas placas comemorativas do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, que estão apregoadas nas igrejas de São Braz, em Plataforma e em Nossa Senhora da Escada, no bairro homônimo.

Engenhos, casas grandes, senzalas, de nada sobrou resquício.

No século XIX começou a industrialização levou à construção de bairros como Plataforma e Periperi, que antes eram fazendas e depois passaram a se tornar grandes latifúndios dos donos de fábricas que vendiam ou arrendavam suas terras para os moradores, geralmente operários, como os ferroviários e os tecelões.

Da década de 1970 para a atualidade muito se perdeu e pouco se sabe sobre essa história, assim como as ruínas que desapareceram.

Em 1939, impulsionados pela descoberta de petróleo na área do Lobato, antigo Cabritos, iniciou a favela sobre palafitas denominada Alagados e também com a deterioração do Sobrado do Coronel, no Caminho de Areia. Na década de 1970, com a abertura da Avenida Afrânio Peixoto, conhecida como Suburbana, cortando a área da Calçada até Paripe (trajeto que a linha férrea inaugurou em 1860) suas margens foram povoadas por moradores de todas as regiões do interior do Estado da Bahia.

Pelos anos sessenta surgiram os bairros dormitório, como EscadaRio Sena e mesmo uma parte de Plataforma, com suas casas pré-moldadas, que foi objeto de estudo de Milton Santos e seus alunos.

Na década de 1970 surgem os Novos Alagados, com pessoas que tiveram que sair das áreas por onde passaria a Avenida Suburbana e foram habitar sobre as águas na Enseada do Cabrito.

Na década de 1980 novas invasões e favelas surgem, apagando cada vez mais os sinais da história, e ao mesmo tempo criando uma nova história a partir de uma nova e diversificada população.

Com esse contingente humano e os progressivos abandonos governamentais a pobreza foi aumentando e as condições de vida se tornando cada vez mais inadequadas.

Há muita história soterrada no Subúrbio Ferroviário de Salvador. O silêncio e o esquecimento são resultado de séculos e de décadas de abandono e falta de registro de histórias que poderiam ser mais bem contadas.

Essa mentalidade do descarte e desapego à memória é um perigo para o Brasil Profundo, pois não deixa vir à tona os registros históricos que podem contribuir com a constituição de uma Nação brasileira.

Neste sentido, o Subúrbio não é resultado da sua pobreza. Ele tem uma história ancestral que precisa ser contada para que possamos conhecer um pouco mais deste Brasil Profundo e lançar novas perspectivas culturais, históricas, educativas e de cidadania e respeito com o território e sua população.

Através das pesquisas que tenho realizado em parceria com Ana Cecília de Sousa Bastos, Marco Illuminati e Marcella Hausen estamos descortinando essas histórias e mostrando que há sim uma beleza invisível deste Brasil Profundo que precisa ser revelada em imagens e textos, para que a história registre que este território e sua população pertencem à História humana.

É claro que tenho a percepção do intangível e do mistério em uma busca dessa natureza.

Para compreender (verbo amplo e difícil, mas possível!) o Brasil Profundo no território do Subúrbio Ferroviário de Salvador é necessário fazer uma genealogia ou arkhé de sua história, de como os seres humanos se relacionaram com o lugar e em quais condições temporais, sociais e culturais essa relação se deu.

Quando comecei a pensar no Acervo da Laje a minha percepção era essa, a de que era necessário um lugar físico para registrar essa genealogia do Subúrbio Ferroviário de Salvador, com tudo o que de melhor e mais significativo ou mais prosaico fosse possível encontrar, preservar e divulgar: cultura, obras artísticas, históricas, culturais, livros, recortes de jornais, sementes, conchas, vídeos, documentários etc., pois a história se faz com todos os registros possíveis.

O Acervo da Laje tem essa função, pois a história é um mosaico. E todo mosaico precisa de um ponto estável para se conectar.

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This entry was published on October 25, 2012 at 3:09 pm and is filed under Uncategorized. Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

One thought on “Continuação do “Brasil Profundo”: A Historia do Subúrbio Ferroviário

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