A Beleza do Suburbio

Reflections on our First Workshop: by Dinho

Despite the fact that we are moving into our third week of workshops (and this post is about the first), I want to make sure to acknowledge and honor the many amazing posts that Dinho has sent my way. Dinho and I have spent a lot of time talking about how much easier it is to get lost in the practical side of it all, and how quickly we forget to dedicate some time to processing everything that’s been going on. I admit, Dinho has done a far better job of it than I have! I have a few of Dinho’s posts in store, and they’re all a little late, but still entirely pertinent and critical in the process of better understanding the project. This post touches on an important date here in the community, which is the day of Saints Cosmas and Damian, on September 27th. Today, this day is a result of a cross over, a syncretism of Candomblé and Catholicism, that is dedicated to celebrating youth and purity. In Candomblé, it is the day of children.

Imagine Halloween gone Candomblé (edit out the goblins and witches, the beginning of autumn and the fake spider webs). Children go to neighboring homes and collect”queimadinha”, or little candies made of sweetened condensed milk, that neighbors throw out of their windows. Typically one family in the community hosts the “caruru”, a traditional dish with okra as the main ingredient; 7 children are selected to sit around, and share, a communal dish.The child who finds the piece of okra that has not been cut (the largest piece of okra), is responsible for hosting the “caruru” the following year.

Dinho’s post explores the holiday more in depth, and what it means to us and to the community. Today, the religious aspect of the holiday has been watered down, as many in the community no longer practice Candomblé. Yet seeing children run from house to house, shoving elbows and pushing each other aside just to get one more piece of candy exuded a connection to a local history, a sense of community, to collective celebration and preservation of tradition.

Dia de Cosme e Damião: 1º encontro com a turma São João do Cabrito, em 27 de setembro de 2013

José Eduardo Ferreira Santos

São João do Cabrito é o nome de uma área pertencente ao bairro de Plataforma. O nome vem do antigo aldeamento jesuítico presente na região no século XVI. A referência a São João do Cabrito vem de uma imagem na qual ele, ainda criança, aparece abraçado a um cabrito, representando o martírio sem emitir som. No imaginário popular da região a imagem ficou como referência por conta dos filtros de barro que traziam a figura de uma criança abraçada a um cabrito.

O nosso primeiro encontro, meu e de Marcella Hausen, com a Turma São João do Cabrito aconteceu no dia 27 de setembro de 2013, na Rua Sá Oliveira, no São João do Cabrito, e contou com a presença de crianças, adolescentes, do artista plástico Perinho Santana, do ator Fabrício Cumming, da professora Vilma Soares.

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Turma de São João do Cabrito, Foto: Marcella Busato Hausen

Este é um dia especial na Bahia. Dia de encontro da religiosidade católica e do candomblé, mas, mais do que isso, é um dia em que se comemora a infância, as crianças, pois é o dia  dedicado a  São Cosme e São Damião, os santos gêmeos da hagiografia católica.

Para fazer uma pequena descrição de suas histórias leio a Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze (ca. 1229 -1298) e retiro este trecho…

“Cosme vem de cosmos, “modelo” ou “ornado” ou, segundo Isidoro, cosmos em grego significa “puro”. De fato, ele foi um modelo para os outros por seus exemplos, foi ornado de virtudes, foi puro de todo vício. Damião vem de dama, “gamo”, animal tímido e doce. Ou Damião deriva de dogma, “doutrina”, e de ana, “no alto”, ou dedamum, “sacrifício”. Ou então Damianus (Damião) quer dizer domini manus, “mão do Senhor” (…). Cosme e Damião eram gêmeos, nascidos na cidade de Egéia, de uma mãe religiosa chamada Teodota. Instruídos  na arte da medicina, receberam tantas graças do Espírito Santo que curavam todas as doenças, não só de homens, mas também de animais, e faziam isso gratuitamente (…). Eles foram martirizados sob Diocleciano, que começou a reinar por volta do ano do Senhor de 287” (2003, pp. 794-5).

Câmara Cascudo (1898 – 1986), no seu Dicionário do Folclore Brasileiro(2001), assim informa a história dos santos gêmeos:

“Santos, irmãos gêmeos, martirizados em Egéia, Cilícia, Ásia Menor, em 27 de setembro de 287, durante a perseguição do Imperador Diocleciano. São patronos dos cirurgiões, chamados de médicos anargiros, por não receberem pagamento dos seus serviços, sempre gratuitos. Os corpos foram transportados para Roma, no pontificado do Papa São Félix, para  a igreja que tem seus nomes, SS. Cosme e Damiano, utilizando o  templum Divi Romuli, erguido por Maxêncio a seu filho Rômulo, morto em 309. O culto divulgou-se  intensamente pela Europa, especialmente na Itália, em Flandres, na França, na Espanha, em Portugal, onde várias igrejas foram construídas sob seu patronato (…). Têm secularmente a simpatia de seus devotos em Portugal e no Brasil, assegurando alimentação  e afastando o contágio epidêmico” (p.164).

Neste dia o candomblé comemora os Ibejis,  “[…] os orixás crianças que presidem a infância e a fraternidade, a duplicidade e o lado infantil dos adultos” (Prandi, 2001, pp. 22).

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Pintura do Ronaldo Mendes

Ainda de acordo com Câmara Cascudo (2001):

“Os negros bantos tiveram seu culto e os jeje-nagôs identificaram Cosme e Damião como os orixás sudaneses Ibeiji (ver). São os Ibeiji africanos representados nos candomblés pelos duplos católicos Cosme e Damião, que recebem festas no seu dia oblacional, com ofertas de alimentos e reunião de amigos para danças, comidas e bebidas (…). Em escala menor ocorre com os Santos Crispim e Crispiniano, em 25 de outubro. (p.164) (…). Dois-dois é a denominação popular baiana dos Ibeiji, os santos Cosme e Damião festejados em 27 de setembro, com refeições oferecidas a sete crianças, seguindo-se o almoço dos adultos e as danças diante do peji ou altar onde estão os dois irmãos gêmeos  (…) (p.201) (…). É interessante ressaltar uma curiosa obrigação que se faz necessária para o bem da devoção, quando se prepara o caruru. Dela tomei conhecimento ao participar com os outros convidados da comida de Cosme e Damião no Rito dos Sete Quiabos. Toda vez que se corta o quiabo em pedacinhos para o caruru, deve-se deixar inteiros os sete maiores. Nisso está um preceito: a pessoa em cujo pratinho cair um dos sete quiabos tem por fatal obrigação oferecer no próximo ano uma missa a São Cosme e a São Damião. Outro detalhe que merece nota é o modo de servir a comida de Dois-dois aos participantes da festa. Por lei, o alimento sagrado tem de ser servido em pratinhos de sobremesa com talheres pequenos. Isso é muito infantil e gracioso. Conta-se  que nos candomblés de invocação de Dois-dois, o devoto, ao ser possuído, durante a possessão fetichista pelos Ibeiji, começa a falar como criança, a trocar letras e a dizer mamã, papá, quelo etc. (Cláudio Tavares, O Caruru de Dois-dois, Revista do Globo, Porto Alegre, 1947)” (pp.201-2).

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Cosme e Damião no Altar, Acervo da Laje. Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

É importante destacar que estamos falando daqui do Subúrbio Ferroviário, particularmente do bairro de Plataforma, onde há a maior concentração de terreiros de candomblé.

A devoção aos santos gêmeos é muito antiga e faz parte do nosso imaginário.

Os casais que têm filhos gêmeos – ou mabaços – ou nascidos neste dia, os denominavam de Cosme, Damião,  Cipriano, Damiana, Crispim e Crispiniano.

Essa data é um dia de fartura de doces e comidas, particularmente o famoso caruru de sete meninos.

As ruas costumam ficar lotadas de crianças e adolescentes que vão em grupos disputar as balas (aqui denominadas de queimados) jogadas pelos adultos, geralmente devotos dos santos mabaços,  assim como participam dos famosos carurus de sete meninos.

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Jogando Queimadinha, Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

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Atras da Queimadinha, Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

Enquanto saíamos de carro com as queridas Carol Gomes e Luana Andrade, que vieram fazer uma matéria sobre o Acervo da Laje, as ruas do São João do Cabrito estavam repletas de crianças e adolescentes disputando tais doces e a atmosfera era belíssima e eterna pelo fato de certas tradições, apesar de tantas mudanças, ainda persistirem aqui na Bahia, onde tudo ganha uma nova configuração, mas mantendo um centro, de fato, uma tradição, pois enquanto observávamos as crianças eu me via ali na minha infância a percorrer esses caminhos antes percorridos por aqueles que me precederam.

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Crianças de São João do Cabrito, Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

No  Acervo da Laje encontramos imagens barrocas e modernas pertencentes ao meu avô materno, Eugênio Ribeiro dos Santos, de Cruz das Almas, interior da Bahia, e da querida moradora de Novos Alagados, dona Tibúrcia Gomes dos Santos, além de um belo quadro representando os queridos santos, padroeiros deste dia.

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Cosme e Damião, Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

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Cosme e Damião 2, Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há dezessete anos, mais precisamente em 27 de setembro de 1996, escrevi um texto etnográfico sobre este dia especial, que consta do meu primeiro livro publicado: “Novos Alagados: histórias do povo e do lugar” (EDUSC, 2005).

Pois é… Depois de dezessete anos estamos aqui no São João do Cabrito, em Plataforma, precisamente na Rua Sá Oliveira, recebendo a primeira turma de crianças e adolescentes que farão parte da Turma São João, equipe que acompanharemos até dezembro, quando o nosso projeto será concluído com uma exposição e cortejo pelas ruas do bairro, mostrando o trabalho que foi realizado.

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O Primeiro Encontro em São João do Cabrito, Foto: José Eduardo Ferreira Santos, Setembro 2013

Estiveram presentes dez crianças e adolescentes, para as quais explicamos o projeto, seus objetivos e tarefas, além da noção de reponsabilidade. Foi dada também a primeira tarefa: registrar uma história, pedindo aos pais, avós etc.

À tarde eu e Marcella encontramos as queridas Carol Gomes e Luana Amaral, do blog “365 motivos para amar Salvador”, que visitaram o Acervo da Laje para fazer uma matéria. Na volta as ruas estavam repletas de crianças e adolescentes. Todos estavam festejando o dia de Cosme e Damião, como um dia eu também festejei…

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Altar no Acervo da Laje, Foto: Marcella Busato Hausen, Setembro 2013

27 de setembro de 2013

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This entry was published on October 15, 2013 at 7:15 pm and is filed under Uncategorized. Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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